quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Visita Guiada Virtual às Ruínas de São Cucufate

Hoje, os meus amigos e fiéis leitores não pagam bilhete de entrada nesta visita guiada que é virtual e reveladora da beleza e diversidade que caracterizam as ruínas de São Cucufate.
Antes de iniciarmos a visita, pedia-vos o favor de desligarem os telemóveis, de falarem baixinho e de estarem atentos ao que eu vou dizer. Já agora tenham um pouco de cuidado com as abelhas pois já não é a primeira vez que elas ferram uma ou outra pessoa, mas costumam ser casos isolados. Não se assustem! Aliás, nós estamos aqui para contemplar todo este espaço inserido numa paisagem bela!
Estamos perante uma vila romana que conheceu 3 ciclos/fases de construção nos séculos I, II e IV d.C. 
É sobretudo, nesta derradeira etapa do século IV que a localidade atinge o seu auge, assegurando a criação duma estrutura magnificente, cujas ruínas continuam a atrair o interesse de 3 000 a 4 000 visitantes (nacionais ou estrangeiros) por ano. Trata-se dum número revelador da importância deste local que é ainda atestada pelo espólio arqueológico transferido posteriormente para a Casa do Arco (Vila de Frades).
Exposta esta pequena introdução, preparem-se para caminhar um pouco, o que seguramente faz bem à vossa saúde (viva o exercício físico!). Coloquem os vossos chapéus, porque está muito sol, e tragam as vossas garrafas de água. Eu quero ver toda a gente confortável e preparada para uma boa lição cultural do vosso mensageiro preferido!



Imagem nº 1 - Preparados para a caminhada? O Mensageiro está à vossa espera! Vamos lá! Não percam o comboio do conhecimento!
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 2 - Só mais um esforço! Já estamos quase a chegar ao primeiro edifício!
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



1 - O Templo Pagão


O primeiro edifício que vos apresento é um templo romano do século IV d.C. É semelhante ao de Milreu (Faro), contudo não sabemos qual seria a divindade pagã consagrada neste edifício de S. Cucufate. Como sabem, o paganismo constituiu a religião oficial do Império Romano até 313 d.C., data da promulgação do Édito de Milão pelos imperadores Constantino I e Licínio que permitiu a liberdade de culto a todas as religiões. Todavia, em 380 d.C, o Édito de Tessalónica do Imperador Teodósio tornou a religião cristã como a oficial e dá-se assim uma decisiva inversão na história, com os pagãos a serem agora perseguidos. Por isso, é presumível que, no século V, este templo pagão se tivesse convertido num oratório cristão. Aliás, o sistema de crenças tinha mudado gradualmente na sociedade romana. O Cristianismo tinha suplantado o Paganismo!



Imagem nº 3 - A Vista Frontal do Templo Pagão.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 4 - Visualização a partir das traseiras do edifício.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira


2 - Os tanques


A vila possuía dois tanques que ladeavam a imponente casa do Proprietário da Vila. As suas dimensões são, de facto, consideráveis. É pouco crível que fossem utilizados para banhos, até porque existiam as termas, como veremos daqui a pouco. Contudo, as águas aqui concentradas permitiam a irrigação das hortas. Para além disso, existiria um sistema de canalização/aqueduto que abasteceria a vila inteira. Os romanos pensavam em tudo!



Imagem nº 5 - O tanque do lado sul da vila romana.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 6 - Um segundo tanque do lado norte da vila romana.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



3 - A Casa do Senhorio


A sua altura é invulgar. A estrutura possuiria dois pisos. Na parte inferior, estavam concentrados os celeiros e as adegas, isto é, espaços de armazenamento da produção agrícola. No piso superior/nobre, tínhamos as varandas, a sala de recepção dos convidados ilustres e ainda quartos. Era já um espaço apropriado para o conforto desta família abastada, cuja identidade desconhecemos, dada a ausência de manuscritos e inscrições. Mas a grandeza da sua casa tende a reforçar o poderio económico das gentes que lideravam os destinos desta vila.
A partir da varanda, o Senhor da Vila poderia ver os tanques, o jardim, o templo, os bosques, os montes.... Por outras palavras, conseguia controlar e inspecionar tudo! Era um sinal claro da sua afirmação pessoal perante todas as outras pessoas da vila.



Imagem nº 7 - Que imponente mansão! Os seus proprietários foram mesmo poderosos!
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 8 - Algumas das partes do edifício merecerão intervenções de restauro no futuro.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 9 - Os corredores de acesso no interior do piso inferior.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 10 - Espaço que corresponderia a um antigo celeiro ou adega.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 11 - Vamos subir esta escada? Não o faça, se tiver vertigens!
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 12 - A partir da varanda (piso superior) podemos ter uma visão bastante alargada.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 13 - A perspectiva possível a nascente, a partir da mesma varanda.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



4 - Mosteiro de São Cucufate (Idade Média)


Cuidado! Abaixem-se! Estamos a entrar no Mosteiro e uma dezena de pombas assustadas saem desesperadamente na nossa direcção porque temem a nossa presença! Atenção aos seus bombardeamentos líquidos! Já agora sabiam que existem também 2 ou 3 morcegos no local? Estes dados só foram para descomprimir o leitor para que possa dar umas valentes gargalhadas. Tem que haver um pouco de humor, senão a visita não mete piada, certo? Vamos então agora falar um pouco deste templo que se instalou numa época posterior à da existência da vila romana.
Em data desconhecida (no período visigodo ou só no século XIII?), instalou-se posteriormente o Mosteiro de São Cucufate, estando este dependente dos freires do Mosteiro de São Vicente de Fora (Lisboa). Os novos monges terão aproveitado a imponência do edifício abandonado pelos antigos proprietários romanos para instalar assim o seu novo templo, e tiveram ainda conhecimento do potencial agrícola da vila que teria sido totalmente abandonada em tempo incerto. Para além disso, desempenharam um papel activo na preservação arquitectónica e estrutural de todo este espaço. Foram ainda encontrados restos mortais dos nossos monges medievais. Numa das sepulturas, encontraram-se dois anéis, duas solas de sapato, uma enxó e um jarro, junto ao esqueleto que terá sido incorporado por alguém que se destacou na região, mas cujo nome desconhecemos.
Este Mosteiro, dedicado a São Cucufate (mártir cristão abordado no artigo anterior), seria substituído, no século XVI, por uma Capela dedicada a São Tiago Maior, tendo esta existido até ao ano de 1723, altura em que falece o último capelão que era sustentado pela Santa Casa da Misericórdia de Vila de Frades.



Imagem nº 14 - O antigo Mosteiro/Capela contém pinturas murais, cuja existência poderá remontar entre os séculos XIV e XVIII - a maior parte será talvez do século XVII, devendo-se à figura de José de Escovar.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 15 - Fresco mais antigo que retrata alegadamente São Cucufate acompanhado por duas Virgens Mártires.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira


5 - Sala de refeições ao ar livre


Nos dias, recheados de mais calor, os senhores da vila almoçariam ou jantariam ao ar livre. É uma tradição que chega ainda hoje aos nossos dias. Os romanos já saberiam tomar decisões, atendendo à situação climática do momento. E decerto que as refeições seriam boas, pelo menos, para a família poderosa que tinha tudo ali ao seu dispor.
Convém mencionar que este espaço teria sido anteriormente, no século II d.C., uma sala de recepção dos convidados.



Imagem nº 16 - Um espaço aprazível para saborear a melhor gastronomia.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



6 - Estruturas da Vila (Séc. I d.C.) e a Casa do Feitor


A Vila Primitiva conservava algumas estruturas rústicas mais humildes. Inclusive, detinha muros. Ainda hoje podem ser observadas partes da sua anterior existência, sendo depois modernizada com o decurso dos tempos e atingindo o auge no Século IV d. C., e é nessa altura, que surge a habitação do feitor nesse lugar.
Tal constatação comprova a existência duma hierarquia. Para além da família poderosa (proprietária da vila), tínhamos o feitor (que acompanharia talvez mais de perto o trabalho dos criados) e os servos que poderiam ser pessoas livres ou não. O que sabemos é que o feitor e os criados teriam acesso a umas pequenas termas junto às suas humildes habitações. Já não era mau de todo!



Imagem nº 17 - Restos das antigas estruturas da Vila do século I d.C. e das posteriores habitações do feitor e criados/servos.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



7 - Termas


Os romanos também gostavam de tomar os seus banhos. Aqui existiam estruturas para todos os gostos: termas de água fria ou quente. Talvez, a sua utilização dependesse do clima presenciado na altura. Houve ainda por parte do Senhor da Vila a intenção de projectar umas novas termas, ainda mais inovadoras, mas não chegou a concluí-las por motivo desconhecido. Será que lhe faltou o dinheiro à última da hora? Talvez, tenha passado por uma crise semelhante à nossa que é actual!



Imagem nº 18 - Vista das termas a partir da varanda superior.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



8 - Estruturas agrárias


O trabalho dos criados poderia ser doméstico ou visaria a produção agrícola que assentava em três produtos da Trilogia Mediterrânica: azeite, vinho e trigo. De facto, foi reportada a existência dum lagar (de azeite ou vinho?) com pesos cilíndricos. Para além disso, foram encontradas graínhas de uvas, ânforas (armazenavam o vinho), restos de talhas...
A produção obtida e armazenada seria canalizada maioritariamente para consumo interno, embora uma parte considerável tivesse sido ainda exportada para o mercado de Pax Iulia (Beja).



Imagem nº 19 - A lavoura terá constituído o principal meio de subsistência do lugar.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira



Imagem nº 20 - Os dois pesos cilíndricos situados num lagar.
Foto da autoria do Mensageiro da Vidigueira


E terminou assim a nossa visita. Gostaram? Nem precisam de dizer nada! Eu sei que adoraram e que tencionam visitar fisicamente o local. Sabem que tudo isto se encontra em Vila de Frades (Vidigueira, Baixo Alentejo). Por isso, peço educadamente que saiam dos vossos computadores e venham visitar as Ruínas de São Cucufate e a Casa do Arco. Vamos lá!


Referências consultadas: ALARCÃO, Jorge de - Roteiros da Arqueologia Portuguesa - S. Cucufate (5); CAETANO, José Palma - Vidigueira e o seu concelho; Conhecimentos legados pela Dra. Susana Correia - textos da Casa do Arco.

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